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Americano que previu tragédia em 2017 arrasa combate aos incêndios

Autor de relatório sobre fogos em Portugal acusa os bombeiros de não saberem apagar fogos ou fazer rescaldo em condições.

O especialista americano que em 2009 previu que Portugal poderia vir a ter fogos de grandes dimensões, como os que queimaram mais de 500 mil hectares de floresta no ano passado, voltou esta sexta-feira a Lisboa para um novo diagnóstico, em nada melhor do que aquele feito há quase uma década: os bombeiros não sabem apagar fogos e muito menos fazer o seu rescaldo; há falta de conhecimento técnico no setor; e os reforços legislativos e de meios, levados a cabo por sucessivos Governos nos últimos anos, em muito pouco conseguiram resolver o problema.

As falhas são muitas mais, mas Mark Beighley, ex-diretor do Gabinete de Incêndios Florestais Norte-Americano, é especialmente duro para com a forma de atuação das corporações de bombeiros nacionais. E chega a apelar à criação de uma linha telefónica, onde anonimamente os portugueses possam denunciar os vizinhos por fazerem queimadas ilegais.

Segundo Beighley, coautor de um relatório sobre incêndios florestais em Portugal que está a ser apresentado esta manhã, no salão nobre do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, as recomendações do seu estudo de 2009 “foram escassamente implementadas” pelas autoridades, que deixaram de fora as questões importantes relacionadas com a prevenção e a redução das ignições – já que em Portugal 98% dos incêndios têm mão humana. No relatório que hoje apresenta, feito a quatro mãos com o professor americano Albert Hyde, diz que os problemas mantiveram-se e até se agravaram.

“Sem uma intervenção forte e imediata, Portugal pode esperar pior do que aquilo que aconteceu em 2017”, alerta, frisando que, se há 10 anos previu que poderiam arder 500 mil hectares, agora estima que os fogos poderão vir a destruir, num só ano, cerca de 750 mil hectares.

Apagar com água é muito pouco

Beighley foca as suas críticas maioritariamente nas táticas de combate aos incêndios, que classifica de “problemáticas”, já que associa o enorme número de reacendimentos em Portugal com a forma como os bombeiros atuam e saem do teatro de operações.

Justifica as críticas com dois fatores. “Primeiro, uma cultura do bombeiro voluntário, que só usa mangueiras e água, que permanece na estrada e não recorre a ferramentas manuais”. Depois, “há muitos fogos diários que obrigam os dispositivos a moverem-se prematuramente de uma primeira intervenção para outra, sem verificarem se o rescaldo está concluído e a assegurarem-se que o incêndio está extinto”.

O especialista – que aponta a necessidade de Portugal ter uma força com especialistas em incêndios e meteorologistas, que disponham de ferramentas de previsão e monitorização eficazes – defende que a terra ardida precisa de ser remexida com máquinas ou enxadas até 25 centímetros de profundidade, mas que alguns bombeiros acham esse trabalho “desprestigiante”.

“Apesar dos novos elementos estarem já preparados para o fazer”, os comandantes de corporações continuam a evitar usar esta tática. “Na maioria dos casos, os fogos não podem ser completamente extintos só com água”, acusa.

Linha de telefone anónima

O relatório defende a criação de uma linha telefónica, em que seja possível reportar de forma anónima suspeitas de comportamentos incendiários. Esta sugestão surge na sequência de entrevistas feitas em algumas aldeias, onde o silêncio impera.

Limpezas “agressivas”

É criticada a má resposta das centrais de biomassa para queimar os 130 mil hectares de mato, que “Portugal está agressivamente a cortar”.

Estruturas desadequadas

A legislação feita desde 2000 não travou o aumento de fogos e área ardida. Para o especialista, as alterações no setor, feitas em 2006, mostram que a Proteção Civil “não soube acompanhar o crescimento do problemas dos incêndios nas áreas rurais”.

Fonte: JN


21/04/2018
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