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Mulher com doença fibroquística da mama há 20 anos agradece a médico do SNS

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Carta de Ana Nunes:

“De manhã cedo e após uma noite mal dormida dirijo-me para o Hospital de Santa Maria, acompanhada dos meus dolorosos exames mamários. É dia da minha consulta anual de Patologia Mamária e já é bom sinal que essa consulta seja anual.

Sofro de doença fibroquística da mama há mais de 20 anos e ainda estou viva. Agradeço-o todos os dias. Levo um livro de contos na mala mas acho que não quero lê-lo. Quero algo que não me faça pensar, que me distraia até sair do hospital porque às vezes tenho medo de não voltar a sair de lá.

Páro num quiosque e compro uma revista com o pretexto de a dar à minha mãe, mas até lá afogo as minhas mágoas e incertezas nas leituras, nos problemas dos outros enquanto espero pela minha vez. Tudo isto porque quando olho ao meu redor sofro com os problemas mais graves do que o meu e que cobardemente quero evitar.

E nem de propósito, na capa está uma atriz linda [Sofia Ribeiro] com cancro da mama, a enfrentar a sua doença perante todos. Às vezes temos uma tendência natural para ir ao encontro dos nossos medos.

Não dou o investimento como perdido e leio, tento arranjar coragem nas palavras dela. Choro e levanto a cabeça, tentando disfarçar a minha emoção quando uma senhora me entrega um panfleto cor de rosa.Leio as primeiras linhas do panfleto: “Uma em cada oito mulheres é atingida pelo cancro da mama. Em Portugal morrem diariamente quatro mulheres vítimas deste tipo de cancro e são detetados 13 novos casos por dia”. Paro de ler, não quero isto porque eu posso ser essa vítima e o panfleto não devia ser cor de rosa.Indigno-me por me terem dado aquele panfleto. Eu também já fiz biópsias, esperei dias por resultados, entrei num pranto na sala das biópsias porque senti que tudo aquilo dilacera a alma de uma mulher. Mas o meu médico é um herói e dele(s) estas revistas não falam. É ele que gentilmente me toca sem me fazer doer. Quando me sinto mais aliviada digo-lhe que ele tem “mãos de fada”. Ele faz parte da minha doença e da minha vida.

Esta cumplicidade reforça as minhas defesas. Vejo no seu olhar um alívio sempre que o resultado da biópsia é negativo ou o tamanho de um quisto “gigante” está estabilizado, mas também já vi consternação quando algo é mais suspeito.

Ele sofre comigo e com todas as mulheres. O seu olhar e simpatia são o espelho da nossa condição. Ele luta por nós todos os dias e vejo-o envelhecer. E que alívio quando ele me deseja Bom Ano e me dá os parabéns porque a minha doença está estável. Imprime o impresso da nova consulta anual, o meu passaporte para mais um ano de vida e aperta-me a mão.

É o meu melhor momento do dia, disso tenho a certeza. Também já me passou a mesma mão pela face quando eu chorei e esboçou um sorriso como se tudo estivesse bem. Desta vez disse-me que se eu sentisse alguma dor anormal ou persistente deveria dirigir-me diretamente a ele e não perder tempo com telefonemas ou esperar por vagas porque ali ninguém o conhece, nem sabem quem ele é.

Estas foram as suas últimas palavras ao sair do gabinete e que me fizeram pensar até hoje. Sim, eu pertenço ao SNS e tenho tido um acompanhamento privilegiado, contrariamente ao que possam estar a pensar. O meu médico é um herói, mas ali ninguém o conhece…”

Fonte: CM

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17/01/2016
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