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Nível de vida dos portugueses está a regredir há 15 anos

Economistas do Banco de Portugal analisaram os três últimos inquéritos aos orçamentos familiares do INE – de 2000, de 2010 e 2015 – e concluíram que, entre pessoas com a mesma escolaridade, o nível de bem-estar, medido pelo rendimento e consumo, tem vindo a baixar de geração em geração.

Imagine dois irmãos, com a mesma escolaridade, que têm cinco anos de diferença entre si. O nível de vida que o irmão mais velho tem hoje já não está ao alcance do irmão mais novo, quando este chegar à sua idade, daqui a cinco anos. A comparação é muito simplificada, mas serve para resumir uma das ideias-chave de um estudo levado a cabo pelo Banco de Portugal: cada geração que passa regride face à anterior, em termos de rendimento e consumo.

O período de observação do estudo são 15 anos (entre 2000 e 2015/2016), precisamente o período coberto pelos três inquéritos aos orçamentos familiares levados a cabo pelo do Instituto Nacional de Estatística (INE), uma base de dados que tem servido para estudar as desigualdades do rendimento e consumo em Portugal.

Uma das conclusões do trabalho da equipa liderada por Nuno Alves, e que vai ao encontro de outros estudos, é que as famílias com formação secundária ou superior têm níveis de rendimento e de consumo bem acima das apresentadas por famílias com baixo níveis de escolaridade. Para se ter uma ideia, em 2015, em média, quem tinha formação secundária ou superior apresentava cinco vezes mais rendimento e consumia três vezes mais do que um agregado com baixas qualificações. Ou seja, estudar compensa – em média, pelo menos.

Outra conclusão previsível é que, entre 2010 e 2015, período em que Portugal atravessou uma profunda recessão, com o desemprego a disparar, os impostos a subir e a proteção social a encolher, registou-se uma quebra generalizada do rendimento e do consumo. Sejam jovens ou mais velhos, mais ou menos escolarizados, os níveis de rendimento e consumo baixaram (em contraste com uma tendência maioritária de aumento de rendimento e de despesas de consumo entre 2000 e 2010). E, também aqui, quem tinha mais escolaridade, apesar de ter perdido nível de vida (medido pelo rendimento e consumo), manteve-se acima do nível de vida de quem tinha até ao 9º ano (sempre em termos médios).

 

FILHO COM CANUDO VIVE PIOR QUE O PAI DOUTOR NA SUA IDADE

Mas, embora a escolaridade não seja indiferente em termos de nível de vida, as suas vantagens depressa se estreitam, e, a cada intervalo de cinco anos, reduzem-se, com o estudo a concluir que “para o mesmo nível educacional, há evidências de regressão de cada geração face às gerações anteriores quando tinham a mesma idade”.

Um exemplo: a geração que em 2010 tinha 45 anos, nessa altura, ganhava e consumia mais do que a geração seguinte, em 2015, quando fez 45 anos. E assim sucessivamente. Esta última geração que em 2015 tinha 45 anos, quando tinham 40 de idade (em 2010, portanto) vivia melhor do que a que em 2015 tinha 40 anos de idade. E por aí adiante.

Em termos simplificados, para se perceber melhor, pode dizer-se que o filho licenciado vive pior que o seu pai licenciado, quando este tinha a sua idade. E pior que o seu irmão mais velho, mas melhor que o seu irmão mais novo.

Esta tendência também se verifica entre a população que tem até ao 9º ano de escolaridade mas como dispersão de rendimentos é menor, as diferenças são muito mais esbatidas.

Uma quarta conclusão interessante do estudo é que entre grupos de pessoas com características semelhantes, há grandes diferenças de rendimento e consumo. Até aqui temos estado sempre a falar de médias, mas uma análise mais fina aos dados leva os economistas a concluírem que “existe uma elevada dispersão da despesa e do rendimento em cada geração, escalão educacional e escalão etário” e que “a dispersão aumenta ao longo do ciclo de vida, em particular ao longo da vida ativa”.

Isto é, duas pessoas com o mesmo nível de educação e a mesma idade podem ter níveis de vida muito distintos. E a desigualdade é tanto maior quanto mais velha é a geração.

Fonte: Expresso


21/06/2018
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