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“Tenho 45 anos… vivo num quarto… vejo a família 2 dias por semana… Quem sou eu? Sou professor contratado…”


Este é um dos vários rostos de um texto que se está a tornar viral pelo Facebook e que mostra bem aquilo que os professores sofrem para ensinar os mais novos.

O texto foi publicado por Alexandre Henriques e termina dizendo que “Professores contratados, sois o verdadeiro exemplo de amor à profissão! Obrigado pela vossa dedicação”.

Embora partilhado em 2016 este texto tem vindo a circular na Internet. E passados 4 anos, parece que nada mudou, pois continua a ser partilhado em grupos de Facebook desta classe trabalhadora

Segue o texto de opinião que podes consultar no blog Com Regras:

“Tenho o mundo suspenso em caixas”

“eu concorro de forma a poder dormir em casa”

“se ficas a chorar não vou…”

São apenas algumas das frases que foram proferidas por professores contratados na reportagem da SIC, intitulada “Longe de Casa”.

A faceta pessoal dos professores é muitas vezes esquecida. Se calhar esquecida não é a melhor palavra, ignorada, sim… ignorada, as escolas, os alunos, os pais, o Ministério de Educação ignoram sistematicamente a vertente pessoal do professor e quando digo vertente pessoal, refiro-me à estrutura emocional do professor.

Já aqui referi a máscara do professor, a que todos os dias é colocada a fim de cumprir a sua função. Quantas vezes não temos pessoas “partidas” por dentro em frente aos alunos? Ainda há pouco tempo soube de uma colega que estava grávida e que perdeu o bebé… um mês depois já estava a dar aulas…

Quando se fala no burnout docente, falta referir que este também surge pelo desequilibro emocional do professor. Podemos comparar a saudade a um vírus que afeta o sistema imunológico do professor, ficando este mais suscetível a outras bactérias: indisciplina, excesso de trabalho, burocracia, etc…

A vacina existe, mas muitos que a procuram encontram sempre a mesma resposta… está esgotada!

Sei bem o que é andar de um lado para o outro, procurar casa, galgar kms e regressar ao fim de semana. Lembro-me do dia em que a minha esposa me deixou em Moura e regressou para a norte, gajo que é gajo não chora, mas nesse dia não fui gajo… fui homem…

Não é justo porra! Não é justo uma pessoa ter 35, 40, 45, 50 anos e não ter direito a viver todos os dias com a sua família, a ter uma estabilidade geográfica e não passar o tempo a fazer planos, a ponderar entre a profissão e a família. A Constituição Portuguesa tem montes de direitos, mas falta lá um… o direito a ter família, a ser família e a usufruir da família.

Por muito que seja engraçado conhecer diferentes realidades e diferentes pontos do país, essa graça perde-se com o galgar da idade.

Ser professor é tão digno como qualquer outra profissão, verdade, mas a responsabilidade e complexidade da profissão deveria dar a este outro tipo de estabilidade, outro tipo de dignidade.

Pensar nesta dignidade teria sido a seu tempo fechar as vagas para se ser professor. Era mais digno dizer, “não! não há espaço para ti” do que aceitar tudo e todos, mas a propina… a mensalidade… falou sempre mais alto. Quem faz frente ao lobby das faculdades?

Infelizmente em muitas escolas, as próprias direções e colegas residentes esquecem-se do que é estar do outro lado, provavelmente porque nunca estiveram do outro lado, a sua primeira escolha foi e é, a sua atual escola. Não tem preço esta estabilidade e é triste quando assistimos a quem é de longe ser “rebaixado” com os piores horários ou as piores turmas. São os tapa buracos… descartáveis, substitutos, indivíduos como o Ministério de Educação lhes apelidou.

Se queremos uma escola humana, com princípios, ética, valores e direitos, deveríamos também pensar em todos esses aspetos quando recebemos um professor de longe. Lembrem-se… estão perante alguém que está amputado emocionalmente, que tem o corpo aqui mas a sua cabeça está a 200, 300, 400 km, ano após ano… ano após ano…

Ao professor resta a saudade que se confunde com a esperança de um dia poder dizer “Finalmente vou ser pai/mãe/filho/filha/marido/mulher… já não vou mais embora, hoje, amanhã e depois de amanhã, estarei aqui, sempre aqui…”

Mas hoje (ou amanhã bem cedinho)… resta a despedida e fazer mais uma viagem pois é preciso voltar a colocar a máscara.

Foi isto que imaginaram para as vossas vidas?

Professores contratados, sois o verdadeiro exemplo de amor à profissão! Obrigado pela vossa dedicação.

Alexandre Henriques


27/01/2020
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